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A Chegada

 

 

Os astrônomos já identificaram milhares de planetas que orbitam em torno de milhares de outras estrelas. Nós somos um ponto de luz, um pixel solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz de sóis distantes e planetas vizinhos, já dizia Carl Sagan. No atual ritmo científico, é possível que outros milhões de planetas sejam encontrados neste século.

A descoberta de vida inteligente arrastaria, obrigatoriamente, a humanidade a ler uma nova página no livro do conhecimento, um evento tão assustador quanto catastrófico emplacaria consequências irreversíveis em nossa vã filosofia e estilo de vida. Os pilares da fé ruiriam diante da não exclusividade e singularidade da vida na Terra, a não ser que, perspicazes, adaptassem seus princípios e dogmas a um novo nível jamais mencionado em seus escritos: o cósmico.

Essa mudança de paradigma quanto à posição da humanidade no Universo é o movimento central do novo filme do genial, e cada vez mais preciso, Denis Villeneuve. A chegada de doze naves alienígenas na Terra é o início da manifestação universal de caos entre os homens. Em estado catatônico, os militares convocam a linguista Dra. Louise Banks (Amy Adams) para mediar o primeiro contato entre humanos e extraterrestres. Enquanto a humanidade hesita a beira de uma nova guerra mundial e do perecimento de sua espécie, nações de todo o planeta correm contra o tempo em busca de respostas.

O diretor canadense novamente nos atordoa com sua atmosfera inebriada pelo sentido de urgência. Seu posicionamento de câmera, sua movimentação lenta e fluída em busca de espaços, a trilha sonora inigualável e sua paleta fria e pálida de tons constituem uma das mais incríveis pinturas em movimento já concebidas. Seus ambientes enigmáticos e tensos fomentam um exercício próprio de mistério na mente de cada espectador. Sua assinatura inaugura um estilo artístico particular e especial que, seguramente, será usado como base e inspiração para futuros diretores.

De forma magistral, Villeneuve utiliza-se de uma especialista do funcionamento da língua embasando seu conteúdo teórico-linguístico na valorização do entendimento do código oral entre seres interplanetários para investigar a natureza das nossas escolhas. Na bifurcação de destinos alternativos, acredita que a inclinação humana independe de final feliz baseando-se exclusivamente na manifestação do amor.

A Chegada move-se de mãos dadas com as ideias de Carl Sagan, criticando a obsessão nacionalista dos homens, sua preocupação egocêntrica, sua estúpida e pequena forma de raciocinar. Diante da escala dos cosmos que nos rodeiam, humanos são irrelevantes, apenas minúsculas e finas películas de vida em uma obscura e solitária superfície de níquel e ferro.

Visto de cima, nossa autoimportância e ilusão de que ocupamos uma posição privilegiada no Universo, concebida à imagem e semelhança de um Criador onipotente, onipresente e onisciente, é desafiada por essa tímida poeira de luz na vastidão cósmica e inexplorada.

por Elmar Ernani