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A Garota Dinamarquesa

 

 

Impossível não começar falando do filme A Garota Dinamarquesa sem citar Eddie Redmayne. O londrino que explodiu ano passado, com uma atuação épica, conquistando os maiores prêmios do cinema - Oscar, Globo de Ouro, Bafta e SAG - ao interpretar Stephen Hawking, retorna esse ano tão genial quanto. Difícil decidir qual das duas é a melhor interpretação deste ator fora de série, se como Hawking ele, preso à um corpo mutilado, comunica-se pelas expressões faciais, como Lili Elbe cada leve movimento é uma forma de comunicação. Os dois personagens possuem semelhanças entre si, seja pelo corpo físico desafortunado, seja pela inquietação.

 

Tom Hooper, diretor do fabuloso filme O Discurso do Rei (2010), além do regular musical Os Miseráveis (2012), regressa ao filme de época em busca da excelência, caminho já trilhado quando dirigiu o longa do rei gago. A Garota Dinamarquesa narra a história de Lili Elbe (Eddie Redmayne), considerada pionera transgênero, uma vez que foi a primeira mulher a realizar cirurgia de redesignação sexual.

 

Hooper foca no relacionamento de Lili antes da cirurgia, quando ainda respondia por seu nome de batismo Einar Wegener, casado com Gerda Wegener (Alicia Vikander), e na sua descoberta como mulher. Incrível também é a performance de Alicia Vikander (para muitos ela é a verdadeira garota dinamarquesa do título, tão forte que é sua imposição em tela), como a esposa que vê, aos poucos, o nascimento de Lili e, ao mesmo tempo, o perecimento de seu marido. Sua agonia e seus conflitos são retratados de forma tão notável que é inverossímil pensar em uma representação superior a essa.

 

O olhar de Hooper é humano e íntimo e sua vocação na direção de atores é evidente. Hooper busca inspiração nas pinceladas de Hammershoi - pintor realista dinamarquês - abusando de um conjunto de cores discretas e tons cinzas e marrons para compor um plano fotográfico belíssimo e suntuoso. O figurino e a maquiagem impressionam e devem ser franco favoritos à corrida do Oscar. Infelizmente, assim como acontecera com A Teoria de Tudo (2014), as atuações estão muito acima da narrativa empregada; desde o fetichismo aplicado de forma exacerbada ao roteiro por vezes desajeitado fica visível algumas imperfeições, deslizes esses que, se não chegam a diminuir o valor da obra, também não permitem que ela suba a um patamar mais elevado.

 

Platão constumava pensar no corpo e na alma como dois fragmentos diferentes, duas existências distintas, onde o homem seria a mescla dos dois e não uma unidade. Platão acreditava que o corpo é um obstáculo para a alma que busca a verdade, para Lili Elbe, o corpo é seu próprio cárcere.