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Aquarius

Aquarius é sobre a coragem de defender um ponto de vista e, diante da retaliação de um poder ímprobo e faccioso, permanecer firme em sua opinião respaldada em suas memórias e seu olhar pela vida. Por ironia do destino, a mesma história poderia ser usada para explicar toda a repercussão política que foi atraída para o filme devido as opiniões contundentes do diretor e boa parte do elenco a respeito do caos político e dos sistemas de comunicação promíscuos que arruínam o País.

Kleber Mendonça Filho, que antes de se tornar diretor era crítico de cinema em Recife, toma de assalto o panteão do cinema brasileiro escrevendo e dirigindo duas das maiores obras já realizadas por essas bandas: o genial Som ao Redor (2012) e o incendiário Aquarius. Seu novo filme suspende o tapete do descaratismo levantando a poeira ao inflamar conflitos enraizados no País da piada pronta.

Sonia Braga é Clara, jornalista aposentada e viúva que vive sozinha em um apartamento à beira-mar no Recife já que todos os outros apartamentos foram adquiridos por uma construtora que deseja construir um novo prédio no local. Com sua incrível relutância em se desfazer de seu lar, Clara enfrentará todo tipo de assédio e ameaça por parte dos responsáveis pelo empreendimento. O ode à memória através de uma trilha sonora irretocável e marcante, funciona como uma máquina do tempo que, aos poucos, constrói a individualidade de um indivíduo rebelde e romântico que desafia as imposições hierárquicas resistindo em favor de sua própria identidade.

Sonia Braga, a mais de quinze anos sem filmar no Brasil, retorna triunfante com um personagem que luta contra a natural irrelevância do tempo. Sua recusa em tornar-se coadjuvante de sua própria existência a mantém ativa e com o raciocínio atualizado, porém, acima de tudo, apegada as experiências e lembranças que moldaram seu existir. Seu espaço físico, o último lugar imaculado onde suas memórias repousam, será defendido com sua alma na velha guerra entre a troca do velho pelo novo. Para Clara, o dever da persistência da memória está intrinsecamente ligado à tenacidade, assim, o impacto necessário para alcançar sua ruptura terá de ser maior que sua vontade de resistir.

Em meio à combustão político-social-partidária que envolveu o filme falou-se de tudo, inclusive que o dever das pessoas de bem seria o de boicotá-lo, quando na verdade o ato de aprimorar seu julgamento crítico através da reflexão embasada e livre das siglas partidárias seria muito mais produtivo. Aquarius é uma metáfora surpreendente sobre a necessidade de preservar aquilo que te define, e isso já seria argumento suficiente para ser visto, e revisto.

por Elmar Ernani