Benjamin Clementine | Música
Benjamin Clementine | Música

Benjamin Clementine

De mãos vazias entrei no mundo, descalço o deixarei.

Uma voz cristalina e inigualável irrompe a inércia de tempos medíocres, sua autenticidade ilumina a penumbra da poluição sonora enlatada que paira no ar. A névoa se dissipa e um gênio reivindica seu lugar.

Benjamin Clementine, o príncipe descalço, assalta o piano, pulveriza a indiferença e doutrina no silêncio. O sussurro doma os sentimentos comovendo-os à medida que cresce. Suas canções tem vida própria, não cabem rótulos, gêneros ou gavetas. Suas apresentações são concertos que emulam um rito sagrado, como sacramentos, ecoam para a eternidade conduzido por letras intemporais.

Entre o murmúrio e a serenidade, o urgente prodígio, ladeado pelas duras lembranças, libera o caos convertido num vozeirão apoteótico que esbraveja e atordoa apoiando o discurso endiabrado que o âmago recita.

Com um alcance vocal e dicção de Nina Simone e a intensidade assombrosa de Edith Piaf, Benjamin Clementine desconcerta com sua retórica rebelde. Poética e sofrida, tomadas de vigor e melancolia, sua música fragmenta o padrão musical tradicional, entre versos declamados e gritos, gemidos e monólogos, um lirismo aristocrático se impõe das sombras.

Benjamin é inglês, filho de pais ganeses. Nasceu nos subúrbios do norte de Londres. É o mais novo de cinco irmãos. Sem contato com a família, por razões nunca explicitadas, permaneceu assim, em isolamento. Inserido na atmosfera corpulenta do rap, lia Kant, William Blake e passava seu tempo em bibliotecas. Alienígena, sem ambiente, sozinho numa caixa de pedra, construiu seu mundo onde dava: corredores de metrô, hotéis acanhados ou bares de má fama. Crescido no meio de uma grande solidão, a música o salvou.

Abandonou Londres para morar em Paris, ao relento. Sem saber onde iria dormir no dia seguinte viveu nas ruas ou perambulando pelos cantos na capital francesa. Benjamin fala pouco de seu passado, há um receio que a história exceda a música. Quando o diz, não romantiza, apesar de saber que as pessoas anseiam por uma bela história sofrida.

A estrada longa o levou aos palcos. Se Nemesis é uma questão de karma, como diz sua canção, Benjamin suplantou o seu. Diz apenas querer se expressar enquanto conserva sua humanidade, mas em seus recitais, o jovem e tímido garoto se metamorfoseia hipnotizando seu público com suas articulações expressionistas e com os pés tocando o chão: homem, instrumentos e palco se tornam um corpo só.

Antes de eu nascer houve uma tempestade. Antes havia fogo, queimando por toda parte, e tudo se tornou nada. Então, do nada eu, Benjamin, nasci. Quando, um dia, me tornar alguém, vou sempre me lembrar que vim do nada.

por Elmar Ernani