Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo

Blade Runner 2049

A aerosfera decadente dos homens rumina infindamente as lembranças doloridas, a cidade de Los Angeles busca a embriaguez do esquecimento perambulando sem destino enfeitada por luzes dissimuladas e artificiais. Não há beleza genuína, nem salvação para a humanidade.

Trinta anos após os eventos do primeiro filme, um novo caçador de andróides, K (Ryan Gosling), desenterra um segredo que pode levar o pouco que restou da sociedade ao colapso total.

Se os esforços do homem para se tornar civilizado são inúteis - já dizia Freud, visto que o homem não é naturalmente gentil, mas destrutivo, agressivo e antissocial - então sua necessidade de conter-se, renunciar-se a si em prol da coletividade, o que derivaria-lhe profundo mal-estar, também o são.

 

Essa é a premissa da sociedade assinada por Ridley Scott no início da década de 80, um lugar onde a humanidade caminhou livre das amarras sociológicas e morais sem, no entanto, fugir do seu destino já ensaiado na obra prima de Freud, O mal-estar na civilização. As patologias do procedimento civilizatório independentemente das escolhas do homem encontrou eco profundo na maneira como a sociedade estruturou sua forma de viver; todos os caminhos conduzem ao fatídico fim.

 

Denis Villeneuve, o impetuoso criador de mundos, encontra na continuação de uma obra imaculada seu principal desafio na carreira. Sua reverência ao antecessor é notória, a cada crepúsculo amplia-se o estonteamento com a iconografia do ambiente. A nostalgia, de tão evidente, demonstra-se tão palpável quanto a densa névoa que envolve os quatro cantos da cidade, as ruínas de Las Vegas rememora a aura desoladora dos antigos impérios. Villeneuve alcança a perfeição visual, abraça o primogênito e concomitantemente supera-o em todos os aspectos, expandindo a filosofia do mito para argumentações que durarão décadas.

No pesadelo ampliado em que se converteu o mundo, a crise é diária e o fardo, pesado. O ser humano é condenado a uma aparente liberdade e, assim como na obra máxima de Kafka, O Processo, sucumbe ao absurdo, alienado de si e dos outros. Divorciados do mundo, o indivíduo submetido aos ditames da sociedade é subjugado por organizações que lhe impõe poder e domínio.

 

Não há mais inocência, mesmo que haja nascido num mundo indiferente ao seu destino e aos valores morais que se possa criar para justificar sua irrisória presença. A mentira se converte em ordem universal, e a vida nada mais é que um conjunto de forças que resistem à morte.

por Elmar Ernani