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Born To Be Blue

 

 

Chesney Henry "Chet" Baker Jr. foi um genial jazzista postulante a melhor trompetista que por esse mundo passou, o mais humano e virtuoso de todos os candidatos ao posto Chet Baker viveu nos extremos de dois mundos diferentes: o dos deuses com seu talento nato estrondoso, e o dos homens com suas frequentes falhas de caráter. Praticamente um autodidata, abandonou o estudo formal para descobrir o instrumento por contra própria aprimorando seu ouvido e lapidando uma sonoridade ímpar, com solos inesquecíveis e uma intensidade humana jamais vista, em contrapartida, não sabia ler partituras.

O filme do, até então desconhecido, Robert Budreau imortaliza a lenda do jazz no fim dos anos 60, uma das mais difíceis épocas de sua vida, devastado pelo vício nas drogas, falido e sem credibilidade no mundo artístico, Chet Baker (Ethan Hawke) busca formas de escapar do fundo do poço e voltar a tocar. Hawke incorpora os trejeitos de Baker com sua elegância curvada de voz mansa e arrogância contida em uma das maiores interpretações de sua carreira, similiar ao que fizera em Boyhood (2014).

Budreau filma com precisão o príncipe do cool mesclando belíssimas imagens em preto e branco com outras de época aprofundando o sofrimento de Baker em um desvario visual fascinante. O magnético garoto branco da Costa Oeste é puro sentimento e alma, com seu trompete ascendente e a personificação definitiva Budreau nos guia numa viagem de ida ao inferno filtrada através do coração e sensibilidade usando aquela que era a principal capacidade do genioso músico; a de tocar as pessoas.

O gênio que se tornou pó, perturbado pelo vício em heroína buscou o lento suicídio colecionando prisões, fracassos e humilhações, teve seus dentes quebrados por conta de uma dívida com um traficante e foi sentenciado como acabado justamente porque sem embocadura não há sopro na belezinha dourada. Usando uma dentadura, reaprendeu a tocar trompete empregando uma nova forma de embocar desafiando todos os prognósticos em relação à sua carreira e ressurgindo das cinzas com canções de forte impacto emocional.

A cena final, que dá nome ao filme, é de uma beleza estarrecedora, digna do músico mais lírico do jazz. Ethan Hawke emula seus movimentos e sua voz sussurrada embalada no swing cool do seu trompete que funcionam como uma redenção para o personagem após tanto infortúnio mostrado em tela, assim como os números musicais eram o escape e o delírio para essa figura atormentada.

por Elmar Ernani