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Breaking Bad

Se a personalidade se desenvolve a partir daquilo que a sociedade oferece como pensava Erich Fromm, a sociedade de Walter White é doentia. Breaking Bad é a saga do pacato professor de química, no interior do Novo México, que, morrendo de câncer e sem esperanças pelo sistema de saúde americano e amargando a derrocada de sua vida financeira depois de deixar para trás uma empresa que se tornaria bilionária, resolve se tornar um traficante ao lado do seu ex-aluno Jesse Pinkman, inserindo-se no mundo do crime de forma irreversível.

A rede AMC escalou os ombros gigantes da HBO para enxergar mais longe. Conduziu seu legado de forma primorosa produzindo duas das principais obras exibidas para a TV: Breaking Bad e Mad Men. Breaking Bad, a fábula do homem que se torna um símbolo, com seus tons pasteís e ensolarados, câmeras frenéticas com seus ângulos insólitos, atuações assombrosas e roteiro único, é a obra de arte da era moderna da televisão, um fenômeno cultural raro. A jornada monstruosa de Walter White na construção de Heisenberg é um dos maiores feitos já realizados nas artes visuais, e a atuação sobrenatural de Bryan Cranston elevam seu simbolismo à de um ícone onipresente.

A Psicologia sempre se esforçou para explorar a personalidade humana analisando as particularidades que influenciam diretamente o comportamento de cada indivíduo. A personalidade é um processo gradual, complexo e único, e, para Freud, é o resultado da ação de três instâncias conhecidas como Id, Ego e Superego. O Id é congênito, um componente biológico subordinado ao princípio do prazer, seu objetivo é reduzir a tensão e evitar a dor sem tomar conhecimento das consequências reais. Ele seria a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade, desconhecendo julgamento de valores. O Ego, regido pelo princípio da realidade, é um mediador da interação entre o Id e as circunstâncias do mundo externo, controlando os impulsos do Id, reprimindo-o muitas vezes, ele representa a racionalidade e não pode existir sem o Id. O Superego é composto por valores sociais e morais definidos pela cultura vigente, desenvolve-se desde o início da vida quando a criança começa a assimilar os modelos sociais ensinados pelos familiares; ele serve como censor do Ego.

Assim, existe uma luta incessante dentro da personalidade de cada indivíduo na busca da convivência harmônica com seus semelhantes, e todo homem deve conviver diariamente no núcleo dessa guerra interna. Nesse tumultuado ambiente, fica o Ego encarregado de arbitrar entre os ímpetos agressivos e sexuais do Id e a busca implacável da perfeição moralista do Superego, ensejando as ansiedades e angústias e as formas que o inconsciente encontra para enfrentá-las, os chamados mecanismos de defesa.

Walter White viveu esse conflito como poucos; pai, marido e professor suburbano deram lugar à Heisenberg, o sucessor de Ramsés II, o rei dos reis. Para que a transformação tivesse forma, foi necessário que o Id prevalecesse nas batalhas da consciência levando à ruína do Superego. Sem a sensibilidade moral de onde derivam sentimentos de culpa, medo e punição, o Ego existe apenas para atingir os objetivos do Id ao invês de controlá-los, abrindo caminho para Heisenberg erguer-se como o legatário de Ozymandias.

Breaking Bad é sobre a efemeridade de todos os reis e seus impérios, não importam quão poderosos tenham sido em seu tempo. Na busca pela imortalidade, Heisenberg suportou seu preço e suas provações, moveu esforços ilimitados para, no fim, encarar a árdua realidade: nada restará, junto à decadência das ruínas colossais, sem limites e nuas, as areias solitárias e planas estendem-se à distâncias.

por Elmar Ernani