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Café Society

 

 

Os bastidores de um País que deseja esquecer o colapso de 1929 servem como ambientação para a nova história de Woody Allen. A época de ouro, os anos 30, retratada aqui entre Los Angeles e NY, seduz o jovem Bobby (Jesse Eisenberg) a iniciar uma carreira no mundo artístico de Hollywood com a ajuda do seu tio (Steve Carell). À primeira vista ele se apaixona por Vonnie (Kristen Stewart), a secretária particular do seu tio, mas ela possui o coração dividido entre o amor puro e ingênuo de Bobby e um amor secreto.

No papel, o elenco não agrada como em outros filmes do autor, contudo na prática é melhor do que as previsões de mais otimista fã do diretor. Jesse Eisenberg encaixa perfeitamente no estereótipo exaltado dos filmes de Allen com suas gesticulações exageradas, Kristen Stewart tem um dos seus melhores papéis na carreira mesmo com as tremedeiras faciais que teimam em continuar e Blake Lively atua de forma sólida e graciosa, compatível com o argumento de sua personagem. Distante do trio, Steve Carell continua impecável, seu talento sobressai nas construções dramáticas com a mesma intensidade que nas comédias burlescas. A aparência extremamente sofisticada chama atenção para um filme de Woody Allen, e os créditos desse deleite ocular que salta aos olhos fica a cargo do perito da luz, Vittorio Storaro - grande colaborador de Bertolucci e Coppola. O mestre italiano, que segue impressionando com seus tons inspirados em Caravaggio, proporciona um requinte visual raro.

O mago da conversação dispara ironias e rajadas afiadas em diálogos enxutos e precisos sobre seus temas habituais: amor, sexo, infidelidade, religião e filosofia, todavia existe uma certa amargura silenciosa no novo romance de Woody Allen. Entre a sátira do paraíso descerebrado de Hollywood e a chacota da alta classe maculada de Nova York, Woody Allen, um dos raros cineastas americanos relevantes ano após ano, explora um triângulo amoroso entre uma mulher e dois homens de uma distância segura, longe da jurisdição no assunto ele expõe as marcas das escolhas sem julgar seus algozes. Sábio, ele sabe que em todo ganho existe uma perda, pois toda escolha está intrinsecamente ligada a uma renúncia.

Café Society é nostálgico e melancólico, diferente das tramas agridoces que o diretor costuma tecer. Sua reflexão é sutil, porém não menos impactante. No ritmo do jazz, Woody Allen promove uma discussão existencialista sobre a adaptabilidade humana, ele crê no poder de adaptação do homem, mas não necessariamente que essa qualidade torna as pessoas imunes à frustrações, porque a vida, no fundo, é uma comédia escrita por um sádico comediante.

por Elmar Ernani