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Chorus

 

 

O luto é o preço que se paga pelo amor.

Os seres humanos convivem com o luto ao longo de suas vidas, cobrem-se de luto por pequenas coisas durante toda sua existência, a começar pelo desmame da mãe. Julgam-se que dentre todos os tipos de lutos a perda de um filho é a mais devastadora e é por esse mar de deserto que o canadense François Delisle busca a travessia.

Dez anos após terem se separado, um casal (Irene e Christophe) reencontra-se quando o corpo do filho desaparecido é encontrado. Pais, em rota de fuga, de um menino invisível, Hugo tinha 8 anos quando quando foi visto pela última vez, precisam encarar o passado para poder, enfim, compreender a realidade.

Delisle filma com frieza, usando o preto e branco para dar uma certa profundidade implacável do desconsolo de todos os envolvidos, em um dos maiores filmes já realizados sobre um trauma indelével, evitando o melodrama gratuito por uma história que por si só já é excessivamente pesada. Belíssimo e doloroso, poderoso e comovente, Chorus é o que há de melhor no cinema, um trabalho notável do autor responsável não apenas pela direção, mas pelo roteiro, edição, fotografia e co-produção de seu trabalho.

O tempo que tudo cura, dizem os velhos axiomas, pode amenizar a dor, mas também é capaz de aumentá-la gerando um luto crônico que, ao invés do indivíduo mudar gradualmente de um estado para outro, permanece indefinidamente estacionando na tristeza. Nesse tipo de luto o tempo é seu inimigo, quanto mais ele passa maior o deterioramento da situação. Não é fácil a substituição da presença em memória, nem como sua recolocação no mundo.

O luto e sua falta de linearidade causa um dos fatores mais peculiares que possa ser vivenciado, ele é definitivamente solitário. Os eremitas que resistem em atravessar esse ambiente inabitado sabem que sua passagem não possui duração determinada e que nesse ínterim sua capacidade de redimensionar as coisas será testada junto com sua racionalidade.

O ente perdido deixa uma lacuna aberta que jamais será totalmente preenchida e não importa o que venha preencher sempre haverá a sensação de permanência da falta. E assim deve ser, é a única maneira criada pelo nosso inconsciente de perpetuar aquele amor que não se deseja abandonar. Isto não desmerece o valor do que foi preenchido na pós-perda, pelo contrário, é na fragilidade da vida que o viver engrandece.

Como a luta entre os instintos da vida e de morte persiste ao longo da vida, essa angústia dos caminhos alternativos nunca será eliminada, participando como fator vitalício da ansiedade. Como diria o grande ator e diretor de teatro e cinema italiano, Vittorio Gassman, deveríamos ter duas vidas, uma para ensaiar e uma para viver.

por Elmar Ernani