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Coração Mudo

 

 

Suicídio foi um termo utilizado pela primeira vez em 1737. Desfontaines jamais imaginou que sua equivocidade remontaria a um impetuoso choque histórico, ético e filosófico que permanece há mais de dois séculos e meio. Albert Camus, com rara felicidade, definiu-o como o único problema filosófico verdadeiramente sério. Camus foi buscar na lenda grega de Sísifo a inspiração para compreender o verdadeiro objetivo fundamental da filosofia, a tarefa que antecede a todas as outras: quanto vale a pena a vida a ser vivida, ou não vale.

 

Santo Agostinho instigado por sua fé inarredável condenou as pobres almas sem perdão como já fizera seu Deus infindáveis vezes. Curiosamente, a tradição judaica, cuja doutrina é primogênita para o cristianismo, através do seu expoente Santo Tomás de Aquino, nunca considerou o suicídio como agressão. Religiões e suas alterações convenientes...

 

O conceituado diretor dinamarquês Bille August, expõe seu argumento sobre o assunto ao colocar três gerações de uma mesma família em um encontro cabal e lancinante. A matriarca, doente terminal, deseja se despedir dos seus entes mais próximos antes de tirar sua própria vida. A medida que o tempo passa e o caminho estreita-se os indivíduos ali presentes precisam lidar com a decisão irrevogável da mãe.

 

Bille August retorna as origens em seu País natal com um drama familiar poderoso e sofrido. Com atuações notáveis foi aplaudido de pé por quase 10 minutos no último Festival de San Sebastián. Com seriedade e elegância o diretor coloca em pauta um assunto desconfortável e polêmico. A fotografia palaciana e expansiva, apenas com luz natural, dá ao filme a intensidade necessária como se preparasse o espectador para o que está por vir.

 

O tormento mental a que o filme nos submete, potencializa a sensação do fardo impotente do existir frente às experiências radicais de sofrimento e o vácuo da espera de uma morte dolorosa e lenta.

 

Justificável ou indefensável, louvável ou imoral, heróico ou covarde, corajoso ou homicida, só quem carrega a pedra montanha acima perpetuamente sabe o quão pesada e irresistível ela é.