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De Longe Te Observo

 

 

Se a observação fortalece a experiência, o primeiro filme de Lorenzo Vigas - que roteiriza ao lado de Guillermo Arriaga, o mestre das histórias - usa a observação para construir um modelo de interpretação que depende das lentes cognitivas de cada receptor. O ator de observar não é meramente passivo, ou seja, pura recepção, a interpretação não ocorre num momento posterior porque ver já é interpretar, trata-se de uma certa organização da visão particular de cada indivíduo sempre relacionando o que se vê com noções já construídas anteriormente. Essa ideia já vem desde Kant, que insistiu no caráter construído de nossos conhecimentos ao mostrar que o conhecimento apesar de fundamentar-se na experiência, nunca se dá de maneira neutra, pois a ela são impostas formas da sensibilidade e do entendimento, características da cognição humana.

Vencedor do prêmio máximo do Festival de Veneza, é uma história sobre o olhar e o poder do não-dito. Armando (O extraordinário Alfredo Castro) é um senhor aparentemente distinto que tem como prazer oculto se masturbar diante de rapazes pobres que são convidados para se despirem em seu apartamento em troca de dinheiro. Sua rotina passiva e bizarra é abalada quando aborda um jovem problemático, Elder, que o agride e o rouba. É o início de um complexo e tenso relacionamento.

Lorenzo Vigas constrói cuidadosamente essa relação entre mentor e discípulo rodeada de resistências e obscuridade. A improvável cumplicidade de dois indivíduos danificados contrapõe ao declínio do ambiente familiar que ambos vivenciaram, negligenciados os dois acostumados a sobreviverem sozinhos, cada um à sua maneira, abandonarão suas cápsulas ao deparar-se com um surpreendente apoio externo.

Dominando a arte do voyeurismo, seja na observação analítica de Armando ou na agressividade compulsiva de Elder os dois personagens, assim como o filme, evoluem aos poucos, de forma coerente e sutil. A narrativa complexa, forte e extremamente dolorosa é uma poesia cruel e ambígua sobre a debilidade moral da sociedade atual e os fantasmas que todos nós carregamos.