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Demolição

 

 

A idéia da maturidade não é um desdobramento natural do tempo vivido de cada indivíduo, e sim o resultado da vontade e do esforço de cada um em consquistá-la. O autoconhecimento, ferramenta quase utópica a partir de como ela é enxergada pela maioria, é um caminho para a minimização de colapsos emocionais, é na perda do contato íntimo consigo mesmo que o sentido do teu existir torna-se uma mera metáfora de sobrevivência. Pessoas vazias são fitas gravadas que se repetem.

O ótimo Jean-Marc Vallée, diretor dos excelentes A Jovem Rainha Victoria (2009), Café de Flore (2011) e Livre (2014) além do espetacular Clube de Compras Dallas (2013), continua sua peregrinação na desconstrução e construção dos seus personagens. O foco agora é um homem bem sucedido (Jake Gyllenhaal) que trabalha em um grande banco de investimento que, após perder sua esposa em um trágico acidente de carro, entra em declínio mental. O encontro inusitado com uma atendente do SAC de uma empresa poderá mudar o rumo de sua vida.

O diretor canadense desafia sua platéia provocando-a com um roteiro complexo e fora do comum, corrompendo a noção básica que as pessoas possuem do luto, como se viver o luto estivesse amarrado em uma série de acontecimentos, sensações e fases pré-programadas. Na atipicidade de seu protagonista, Marc Vallée consegue impor o estado de loucura como regra, contudo é na sinceridade emocional e vazia de Jake Gyllenhaal que o filme se torna inesquecível. Um desempenho brilhante de um ator que não precisa falar para emocionar, um profissional híbrido dotado de um talento difícil de mensurar, beirando a genialidade.

É na transgressão furiosa e demolidora (seja nas paredes de concreto ou nas relações pessoais) que a película se torna emblemática, na busca de um entendimento sobre esse conjunto de reações à uma perda significativa, Vallée escancara um duelo interno entre as atitudes esperadas, aquelas que são pré-determinadas como adequadas e os sentimentos sinceros de um indivíduo prestes a implodir. Avaliar a própria existência, apesar de árduo, é o melhor caminho para evitar o processo cíclico de destruição.

Nietzsche via a nossa breve existência como uma passagem sem regras, para ele, o mundo é estético e não moral. Em sua visão, mundo é uma eterna ausência de ordem onde seus encadeamentos de formas são geradas a partir da luta e contradição, é um fluxo tomado pelo caos e formas infindáveis, eternamente se transformando, destruindo e recriando. O mundo é como uma criança brincando que constrói e destrói infinitamente, faz parte da natureza infantil. A criança está além do bem e do mal.