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Dheepan

 

 

Apesar de ressuscitar temas delicados na França, como a situação dos refugiados, Dheepan é sobre sobrevivência, e, se existe um limite em que o homem se vê obrigado a agir para continuar prevalecendo sua espécie, Jacques Audiard pretende descobrí-lo.

 

Para encarar o suplício maior, o diretor cria uma espécie de Rambo do século XXI, um personagem que não sabe falar de amor contudo é dotado de uma invulnerabilidade incomum. Filme que rendeu a Palma de Ouro em Cannes, expõe a vida de três imigrantes que fingem ser uma família para escapar da guerra civil no Sri Lanka e recomeçarem na França. Não obstante, no país europeu a guerra volta a afligí-los: traficantes armados atuam à luz do dia prevalecendo seu domínio sobre os demais moradores do local. O sistema diário de viver sob ameaça fará crescer dentro do protagonista o embrião da sobrevivência que culminará na luta para estabelecer seu território.

 

Jacques Audiard possui um estilo de cinema que o afasta das escolas francesas. Sua narrativa é reta e objetiva e seus argumentos, via de regra, investigam pessoas calejadas, que possuem o infortúnio dentro da pele e desenvolvem-se à margem da legalidade. Violência, tensão emocional, crimes e redenção fazem parte do ambiente natural de seus filmes. Seus últimos dois trabalhos - O Profeta (2009) e Ferrugem e Osso (2012) - são obrigatórios para qualquer cinéfilo, se o primeiro trabalha com as raízes sociais e a tomada à força das rédeas de seu próprio destino por parte do protagonista, o segundo opõe força e fragilidade em uma relação de extremos que flerta com o desastre.

 

Criador de cenas marcantes, Audiard eleva seu Rambo, um ex-guerrilheiro do Sri Lanka, à uma força irresistível da natureza em um filme que pula de gêneros e expectativas construindo um universo particular ao seu redor. O perito francês em assuntos belicosos inicia o drama como um documentário que, aos poucos, se transforma em um discurso social sobre as questões mais difíceis da Europa atual, os imigrantes, etnias e suas respectivas religiosidades, para então concluir com a catarse final digna dos filmes de ação da década de 80 mantendo, a todo instante, a qualidade magnética dos intérpretes e a realidade crível da situação, tudo isso regado a um banho de sangue e uma fotografia magistral da estreante Eponine Momenceau.

 

Antoine Lavoisier demoliu a teoria do flogisto mostrando de modo inegável que o fenômeno da combustão estava diretamente ligado a um componente presente no ar, demonstrando sob tua lei da conservação da matéria que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. O ser humano, o mais complexo dentro todos os seres, possui intimamente todas as reações químicas necessárias para tal combustão, Audiard, sabendo que a loucura é como a gravidade basta um empurrão, pincela um cenário trágico para ser o impulso do ato final triunfante instaurado no epicentro do caos.