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Divinas

Em comunidades carentes o tráfico está tão intrinsecamente ligado ao convívio da população, no seu dia-a-dia, que sua mentalidade e propaganda é disseminada a todos como se fosse um tipo de religião. De fato, algumas religiões e igrejas tem, no seu íntimo, algo muito em comum com o tráfico de drogas: em ambas o diabo entra pelos bolsos.

Em um gueto de Paris, o tráfico é encarado como uma oportunidade de mudança de vida. Dounia, uma jovem que mora na comunidade, decide tentar seguindo os padrões do lugar em que vive, ou seja, se tornando uma traficante. Invejando o status de Rebecca, a líder do contrabando local, Dounia pretende se tornar tão poderosa e reconhecida como ela, e para isso contará com a ajuda de sua fiel escudeira Maimouna.

Houda Benyamina escreve e dirige essa dança com o diabo apresentando um lado da capital francesa que não integra os guias turísticos. Ali, há aluns quilômetros da Champs-Élysées, suas existências são meros acidentes, vontades bobas do acaso, ninguém se importa. Poderia estar descrevendo mais da metade do Brasil, mas essa história se passa na cidade luz, no coração do que há de mais bonito no mundo. O caos é generalizado. Apertem os cintos.

A certa altura da projeção Dounia zomba de sua professora em público por conta de seu salário miserável. Em suas contas, os mirrados rendimentos mal se sustentam, a chacota é geral, a desmoralização também. O deus do dinheiro, erguido no topo dos céus, ecoa onipotente sobre os homens suas glórias e aqui, no túmulo das lamentações, resta-se a corrida dos mudos em busca do papel premiado.

Apenas a miséria é sem inveja. Essa herança maldita atenta contra o discernimento, já dizia o escritor francês, Georges Bernanos, é preferível ao pobre coitado um copo de vinho a um pão, porque o estômago da miséria necessita mais de ilusões que de alimento. Spengler não estava de todo errado quando antecipou a decadência do ocidente, só se esqueceu de incluir a outra metade do planeta situada a leste do meridiano de Greenwich.

por Elmar Ernani