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Dunkirk

"É então, nos cumes do desespero, que a vida se revela angustiante e miserável; um caminhar para a morte, pura e sublime".

O novo filme de Christopher Nolan parece um trecho retirado dos livros de Emil Cioran. Desespero, agonia, tristeza e sofrimento atestam o drama da finitude do ser humano num pesadelo de espera incessante.

No início da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha avança ferozmente rumo à França cercando as tropas aliadas nas praias de Dunkirk, cidade portuária localizada no norte desse país. A história acompanha três momentos distintos da Evacuação de Dunquerque, chamada de Operação Dínamo, na qual soldados da Bélgica, do Império Britânico e da França esperaram um milagre rodeados pelo exército alemão.

Nolan filma o aguardo da morte por parte dos aliados em um martírio de agonia prolongada. O ambiente, a tensão e a trilha sonora encaminham a expectativa para o limite do desfiladeiro. Poucas vezes a grande tela representou o horror da realidade com maestria. Um exercício de admiração diante desta terrível certeza sinistra que antecede o morrer.

Emil Cioran levou o descontentamento com a vida às últimas consequências. Influenciado por Nietzsche, Schopenhauer e Kierkegaard, escreveu para sobreviver. Para ele, escrever é desfazer-se de seus pesares, vomitar seus segredos ao passo que viver é uma enfermidade onde sempre triunfará a morte, não havendo como fugir de seu fantasma.

Em suas teses, agonizar é ser martirizado na fronteira entre a vida e a morte. Sendo a morte imanente à vida, esta se converte, quase em sua totalidade, em uma agonia. A agonia verdadeira faz alcançar o nada através da morte. É nessa sensação de esgotamento que Nolan nos consome e imediatamente a morte obtém a vantagem.

Em Dunkirk, no limite da vida, o que não é ocasião para a morte? Morre-se por tudo o que existe e por tudo o que não existe. Cada vivência é, para esses soldados desafortunados, um salto no nada. Cioran costumava dizer que mesmo que a morte triunfe para ambos, tanto o homem enfermo quanto o homem decaído, recomeça a cada dia, apesar de tudo o que sabe. Esse é o desesperado desejo dos condenados: mais um dia para recomeçar. 

por Elmar Ernani