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É Apenas o Fim do Mundo

Dois anos se passaram desde Mommy (2014) e Xavier Dolan já possui novamente algo interessante a contar, suas aflições não cessam, nem seu repertório. O precoce fenômeno canadense continua a atordoar com seu talento nato para a criação de histórias provocadoras, seus conflitos, apesar de locomoverem por assuntos similares, possuem uma capacidade invejável de provocar as mais diversas reflexões. Seu lugar comum visto de perspectivas e olhares diferentes geram uma multiplicidade de microcosmos distintos.

Longe de casa há doze anos, Louis (Gaspard Ulliel) retorna ao berço familiar para informá-los que irá morrer em breve. No entanto, o cronograma da curta reunião, idealizado por Louis, sai de seu controle assim que as mágoas, as memórias, os ressentimentos e as brigas do passado ressurgem de maneira implacável.

Com um elenco galático - Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux entre outros - Dolan martiriza as relações familiares sabotando qualquer tentativa de afinidade. Rixas alimentam solidão com a mesma força que as lástimas fomentam a raiva. Nesse embuste sentimental as dúvidas gravitam pelos cômodos da casa e as palavras, mesmo medidas, causam desconforto.

Dolan, sempre atento as relações humanas, critica as falsas relações amorosas no leito familiar e a felicidade fabricada pelo laço de sangue, para ele o amor não é regido pela hereditariedade assim como os traços genéticos, na maioria das vezes suporta-se, por mera eventualidade sanguínea, mais do que se ama. O filósofo que matou Deus já alertava que é difícil viver com as pessoas porque calar é árduo. Amar é mais ainda.

Tolstói afirma em Anna Karenina que todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Debaixo do tapete, onde as máscaras não entram, nem tudo é como parece.

por Elmar Ernani