Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo

Fragmentado

Em 1999 o mundo viu surgir uma estrela, M. Night Shyamalan, cineasta e escritor indiano, surpreenderia a sétima arte com uma obra irretocável, O Sexto Sentido. Criando um novo gênero cinematográfico - uma mistura de drama, suspense, terror e fantasia - Shyamalan regurgitava o arquétipo do chavão inovando e espalhando referências por suas obras.

Os próximos cinco anos foram o auge de sua retórica, dirigiu e escreveu o incrível Corpo Fechado (2000), o instigante Sinais (2002) e o enigmático e apocalíptico A Vila (2004), fechando sua arrebatadora quadrilogia sobre o homem e o inexplorado.

Através da manipulação de sua matéria prima, o desconhecido, Shyamalan expõe o medo do ser humano com a falta de entendimento do que o cerca agregando valores filosóficos e espirituais em sua jornada. É necessário que o sujeito perca a desconexão com a vida, o universo, só assim, abandonado e acuado, ele se permitirá ser capaz de assimilar os acontecimentos.

Alçado ao posto de gênio, Shyamalan colecionou fracassos e desastres. Uma década inteira de filmes esquecíveis e/ou patéticos, como, o bobo A Dama na Água (2006), o horroroso Fim dos Tempos (2008), o risível O Último Mestre do Ar (2010) e o medonho Depois da Terra (2013), descredenciaram seu talento ultrajando seu nome e o relegando ao esquecimento.

Fragmentado recoloca Shyamalan na crista da onda. No suspense, Kevin (James McAvoy, em um show de interpretação) possui vinte e três personalidades distintas que alternam quimicamente seu organismo à medida que cada personalidade toma o controle. Um dia ele sequestra três adolescentes em um estacionamento e, isoladas no cativeiro, elas passam a conhecer as diversas facetas de um homem atormentado. O que elas ainda não sabem é que a vigésima quarta personalidade encontra-se em pleno de estado de iminência, ela é conhecida como A Besta.

Aristóteles usou pela primeira vez em seus estudos literários a palavra anagnórise. Ela é o giro da fortuna, quando a revelação é, enfim, posta à mesa. Aristóteles definiu como sendo a passagem da ignorância para o conhecimento, o único caminho para o aprendizado. Alimentando-se de metáforas para conhecer o mundo, Shyamalan procura iluminar as mentes sobre todas as coisas que não se possui controle, mas sabe que os que sofrem mais são os mais evoluídos.

O ser humano é tudo ou nada e, na cultura do momento que vive-se dia após dia, heróis e vilões são elegidos toda semana. Vivemos a era dos extremos. Nelson Rodrigues dizia que os idiotas da objetividade não vão além dos fatos concretos. O idiota só não é abominável quando o ridículo o salva. O mistério pertence a vida. Alma é tudo, o resto é paisagem.

Vivemos tempos medíocres.

por Elmar Ernani