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Free Fire

Albert Camus, famoso escritor francês, dispunha de uma profunda obsessão por dois vocábulos, em seu sentido amplo, que juntos formam as colunas do novo filme de Ben Wheatley: absurdo e revolta.

Wheatley emplaca dois grandes filmes que a primeira vista podem não significar qualquer relação entre si, no entanto se complementam. Tudo converge para o acerto de contas. Ambientado em Boston, década de 70, uma mulher planeja o encontro entre líderes do IRA e fornecedores de armas. O encontro de negócios tornar-se-á uma luta pela sobrevivência assim que o nervoso ambiente de pólvora degenera para o descontrole total.

Abarrotado de cinismo e tensão, em pouco tempo de projeção é possível prever a iminência do caos. Diálogos, antes comedidos, transformam-se num ringue de desaforos banhado por uma chuva de lanças de ódio. O dissídio encontra a anarquia, a negociação postergada não significa mais nada para ambos os lados; esqueça lucro, oferta e demanda, só a dor é positiva. Na fúria inelutável, o pandemônio é a solução.

Dentro de um velho galpão os homens continuam irracionais e irascíveis como também o são fora dele. Tribos histéricas prontas a se digladiar umas com as outras ao primeiro sinal de desconforto emocional. Essa doença do espirito acompanha o ser humano, consiste na cisão entre o homem e mundo; a avidez humana por um significado e a indiferença do mundo como resposta. Assim, nasce o absurdo, da existência de uma trindade insolúvel: o homem, o mundo e a interação desses dois.

Acompanhando a hodierna geração fracassada e ressentida que povoa, aos montes, as cidades, é de se pensar se houve alguma vez na Terra uma reprodução de jovens mais cansada e sem futuro. Distantes da realidade, passam seus dias exigindo direitos e atenção, ao primeiro sinal de contradição revoltam-se. Revolta é ação. Surge um senso coletivo de prazer; eu me revolto, logo existimos. No galpão a revolta encontra, na arma de fogo, um meio para satisfazer-se. O absurdo os mantém unidos em sua finalidade de afunilar todo o impasse em direção ao caos.

A morte, surda, antes espreitando na esquina agora passeia livremente. Na vida real, assim como no galpão, no balé do império dos homens sobreviver é a recompensa. Na experiência do absurdo; o sofrimento é individual.

por Elmar Ernani