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Hannibal

Caminhamos até a beira do penhasco, onde era possível sentir o cheiro do mar e ver as fortes ondas rebentando contras as paredes rochosas da falésia. A ribanceira está erodindo, havia mais terra quando estive aqui da última vez. Em breve, tudo isso estará perdido para o mar...

 

Seja no jogo de mentes, nos devaneios da mente humana, na fotografia sombria e soberba, nos diálogos grandiosos ou na atuação sobrenatural de Mads Mikkelsen, a genialidade de Hannibal, assim como o Diabo, está nos detalhes. Sua habilidade em estimular a capacidade humana de se entregar para os aspectos mais obscuros da alma está no conhecimento inerente de que sua espécie sucumbe ante a força dos seus desejos mais sombrios.

A trama de Hannibal é focada no médico, psiquiatra, assassino serial e canibal, Hannibal Lecter (Mads Mikkelsen), e na sua peculiar relação com Will Graham. A bipartição entre monstro e homem dos dois protagonistas é um acontecimento inédito nas produções da TV. Bryan Fuller, corajoso idealizador, abala emocionalmente seus espectadores com um show de violência incomum por uma realidade instável. Entre a sanidade e alucinação, Fuller desafia seu público a conhecer uma das figuras mais fascinantes e selvagens já elaboradas, um ser soberano ávido por controle.

Santo Agostinho afirmara que o mal físico ou espiritual, não existe, o que de fato acontece é um distancionamento do bem. Hannibal é o desarranjo das ideias de Agostinho, o mal em sua essência mais pura, um ser tão detestável que a tragédia bíblica do bem contra o mal parece ter sido criada a seu respeito. A personificação do Demônio vive pelo prazer da destruição e manipulação. Vaidoso, sedutor, elegante e extremamente inteligente, Hannibal eleva-se das sombras do Mefisto de Goethe para se tornar a encarnação da dor e do medo, cuja essência maligna encontra-se na capacidade de corrompimento, um monstro doentio e filosófico.

Nas palavras que mutilam ou na brutalidade de seu olhar Hannibal nao deseja apenas aterrorizar, sua intenção é perturbar, excitar e subverter, é explorar o vazio existencial suficientemente para levar o ser humano à procura dos excessos sensoriais, seja pelo meio do prazer ou da dor, como objetivo de escapar das limitações da carne. Suas ações delimitam o significado de maldade e seu papel é deturpar o livre arbítrio humano introduzindo-o como consequência de suas ações. Nem mesmo a clássica conceituação de Kant do mal como sendo o ato de causar sofrimento desnecessário define Hannibal, sua transcedência desconhece tempo, limites e conceitos, ele representa as complexas combinações da humanidade, existindo para estabelecer a ordem, fragmentando e tornando irrelevantes as antigas dicotomias entre o bem e o mal, entre a moralidade e a amoralidade.

Visualmente falando nenhuma outra série propôs ir tão longe quanto Hannibal, seu perfeccionismo com a aparência é quase sagrado e o cuidado com a imagem emociona, Fuller traça um percurso poético a partir das trevas refletindo simbolismos pela exterioridade e reflexão intelectual.

O mito do Diabo é mais remoto do que contam os cristãos, seus relatos se iniciam no século IV a.C., na Pérsia - conhecida hoje como Irã - local em que ocorreu o contato entre Persas e Hebreus durante o famoso cativeiro da Babilônia. O profeta Zaratustra descreveu um ser que seria o príncipe das trevas, Arimã, representado como uma serpente, a mesma que levaria Eva a provar do fruto proibido e mudar os rumos da humanidade. Hannibal, o anjo da morte, afasta-se da mitologia antiga oferecendo um verdadeiro e incontestável temor, do tipo que pode ser encontrado na fisiologia dos homens.

por Elmar Ernani