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Julieta

Nenhum cineasta explorou tanto o universo feminino quanto o lendário Pedro Almodóvar, e suas frequentes incursões nesse ambiente só confirmam sua sensibilidade aguçada para os sentimentos femininos. Sem deixar-se cair na caricatura gratuita, o maior diretor espanhol sempre abordou temas complexos de maneira convincente com personagens relevantes, por vezes exagerados, porém reais.

Em seu vigésimo longa Almodóvar relata duas fases da vida de uma mesma mulher, Julieta, na sua juventude (Adriana Ugarte) e na maturidade (Emma Suárez). Entre lembranças, ressentimentos e desespero, Julieta expõe sua vida através de uma carta destinada à sua filha. Entre o passado e presente, idas e vindas esclarecerão 30 anos da vida de Julieta percorrendo um labirinto de lamento para, aos poucos, evidenciar seu luto.

O mestre das cores quentes e vivas segura a mão para fazer um dos seus dramas mais contidos da carreira resultando em um filme muito sóbrio e austero e em perfeita sintonia com o roteiro que não necessitava de um melodrama, mas sim de um drama seco. Conforme o tempo transcorre, suas cores vibrantes dão lugar à tons pastéis como se a energia da protagonista se dissipasse transformando-a em um corpo de genuína tristeza. Dono de um estilo cinematográfico único, Almodóvar envolve o espectador com seu universo complexo cheio de camadas estéticas e narrativas.

 

No abismo de incertezas, Almodóvar mantém sua arte inigualável, contudo reinventando-se, revelando uma melancolia até então inédita em suas obras. Um drama silenciado que deixa o humor de lado em prol da reflexão, que tateia a tragédia com a intimidade de quem a conhece de perto. Julieta é sobre o abatimento de anos e anos de dor, sobre os que abandonam e os que perdem, sobre os que seguem e os que não conseguem, aqueles cuja a força da inércia faz com que resista a qualquer mudança de velocidade, já afirmara Newton, no primeiro princípio da Dinâmica.

O notório argumentista disse que a dor não é um tema em Julieta, mas uma das personagens e, talvez, a personagem mais importante do filme. Ao trilhar novos caminhos Almodóvar flerta com a sombriedade distanciando-se de seus assuntos que perduraram durante toda sua filmografia. Para encarar o escuro deve-se ter cautela, pois ao olhar demoradamente para o fundo do abismo, ou seja, olhar tempo suficiente pra compreender a inutilidade de se divisar o nada, a visão retornará no sentido oposto fazendo com que o abismo olhe para dentro de ti, dissera uma vez a marreta de Nietzsche.

por Elmar Ernani