Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo

Kóblic

 

 

Cinema argentino de qualidade e muito bem executado que pincela contornos sombrios ao dilema moral que se abate em alguns indivíduos que estiveram na frente das linhas inimigas em períodos ditatoriais. Kóblic (Ricardo Darín) é um ex-capitão das Forças Armadas responsável por coordenar as operações aéreas conhecidas como "voos da morte", onde elementos considerados subversivos pela ditadura eram arremessados para foras dos aviões. Atormentado pela culpa e por lembranças imperecíveis, ele busca abrigo em um povoado dos Pampas argentinos sob ameaça constante de ser capturado como desertor.

Reavendo a parceria de Um Conto Chinês (2011), Sebastián Borensztein e Ricardo Darín trafegam para o extremo oposto da terapia divertida e emocionante de outrora. Taciturno e dramático, Kóblic é um western argentino sobre o instinto de sobrevivência. Dessaturado de cores e com tons frios, a excelente fotografia incorpora densidade à ambientação deste faroeste contemporâneo baseado nos anos de chumbo da Argentina. Minimalista com personagens fortes e implacáveis e um antagonista a altura do anti-herói, Borensztein assimila a essência dos westerns americanos (com direito, inclusive, a um duelo final) reinterpretando seus velhos clichês ao adicionar uma atmosfera noir em um conflito moral entre os dois lados de uma mesma moeda.

O ressentimento e a culpa que habitam em Kóblic, reprime sua afirmação da liberdade, levando-o a uma existência submissa, apenas reativa. É necessário um evento fulminante para que o movimento de superação da passividade seja implantado. Com seu olhar nietzschiano, Kóblic precisará afirmar sua potência de vida em detrimento ao niilismo reativo e à falta de sentido - assim como o filósofo-dinamite que no século XIX buscou fortalecer o homem em detrimento dos grilhões da sociedade ao indivíduo. Suas atitudes ecoarão o ímpeto necessário a fim de recusar-se continuar na omissão, culpado pelo o que a moral o condenou e torturando-se em arrependimento.

Borensztein desafia a dicotomia entre o bem e o mal, isento de preconceitos religiosos e morais, para construir novos valores sobre pilares renovados, não mais sobre os escombros dos antigos, abandonando o estereótipo de bons e maus como se os dois estivessem em lados opostos, ambos são partes inerentes e próprias da natureza humana. No eterno jogo de sombras os ideais absolutos de caráter são ilusórios.

por Elmar Ernani