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Lion

A marcha pela revelação de sua própria identidade norteia os passos e martiriza os pensamentos de Saroo. Como um movimento dialético, a metamorfose do indivíduo só será completa a partir da epifania do descobrimento de sua origem mesmo que isso custe sua essência. O produto sempre será preterido durante a busca pela origem do processo.

Garth Davis retrata a surreal história de um garoto indiano, Saroo (Dev Patel), que quando tinha apenas cinco anos de idade se perdeu do irmão mais velho em uma estação de trem. Vivendo à própria sorte nas ruas de Calcutá até ser adotado por uma família australiana, Saroo buscará as pegadas de seu passado para se reencontrar com sua família biológica e, consequentemente, procurar sentido a sua existência.

A incapacidade de superar o ocorrido aumenta à medida que a resposta a pergunta 'quem sou eu?' não pode ser fornecida de maneira satisfatória sem o reconhecimento dos provedores externos. A lei da genética geral do desenvolvimento cultural enunciada por Vigotski sustenta que a identidade psicológica do sujeito foi anteriormente definida pela relação, um acontecimento social pregresso, e sem ela, restam-se desertos e ruínas.

Dividido em duas metades, assim como a incrível crônica da vida desse menino, a primeira parte é de um espetáculo visual com atuações comoventes e imagens sinceras, porém a segunda metade deixa a desejar na construção de um ambiente autêntico, permanece um breve incômodo em diálogos confeccionados que mais parecem discursos de ONGs.

Sob a ação criadora do genitores, a sociabilidade biológica adquire contornos e formas humanas tornando-se modos de organização das relações sociais do indivíduo no seu meio. Nietzsche em Além do Bem e do Mal escreve que em nós repousa várias almas, e precisamente por causa dessa variedade anímica que carregamos em nossos corpos que o impasse da originalidade do corpo, já levantado por Spinoza, prospera alcançando a crise de identidade.

Aquele que não conhece sua história sempre irá preferir seguir os rastros de uma armadilha numa estrada sem a fim à ser atormentado pelos ecos de um rádio antigo.

por Elmar Ernani