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Mãe!

Ao falar sobre o sagrado de forma tão pessoal e corajosa, Darren Aronofsky perfila sua obra com a de outros grandes diretores que se aventuraram por esse tema tão viscoso, como: Martin Scorsese (A Última Tentação de Cristo), Jean Luc-Godard (Je Vous Salue Marie) e Lars Von Trier (Melancolia).

Vivemos tempos obscuros, certamente não foi fácil para o diretor bancar um projeto desse tipo, feito com originalidade, muito cérebro e, principalmente, coração.

Na primeira parte do filme, presenciamos, em detalhes, a arquitetura de um pequeno inferno particular. A luz vacilante de todos os cômodos da casa e a perspectiva da câmera na cara da protagonista contribuem para a descoberta de um claustrofóbico ambiente de estranhamento e horror.

Existe uma questão sensorial que jamais cessa e nessa brincadeira Jennifer Lawrence nos conduz por um labirinto construído por suas emoções e percepções - audição, tato, amor, medo e raiva, tudo flui caoticamente pela tela.

No segundo ato, as relações se aprofundam e começamos a ter as primeiras impressões sobre o fato de que, na realidade, estamos frente a uma história contada em duas dimensões interrelacionadas: a alegoria divina e a natureza humana.

Introduz-se um campo fértil para a especulação filosófica: ética, arte, morte, pecado, amor, fé. Passamos a explorar o estranho, ridículo e limitado lugar do homem na ordem das coisas.

A conclusão é o momento não só de imersão sensorial, mas também de preparo para a grande revelação. Estamos falando do grau máxima de irracionalidade humana, sua violência intrínseca, as fezes expostas no ventre aberto a golpes certeiros de faca, a loucura de perdoar o ato mais sanguinolento e covarde. Em meio a tudo isso, um Deus que ri, alegra-se e se compadece da insanidade de sua criação imperfeita.

Mãe! não é uma obra prima e muito menos um grande filme sob ponto de vista técnico. Talvez nem mesmo realize com plenitude os debates que quis levantar. É bastante evidente a indefinição do roteiro em alguns momentos-chave, balançando entre o discurso metafísico e a mera crítica à imprensa paparazzi. Ainda assim, é preciso aplaudir Aronofsky, certamente não tanto pela execução, mas sim pela originalidade e força das ideias que quis colocar sobre a mesa nesse admirável longa metragem.

por Leonardo Moreira