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Manchester À Beira Mar

 

 

Dor, angústia, perda, remorso e sofrimento, tudo fundido em uma amálgama poética de cinzas por planos distantes e frios rabiscando a síntese da decomposição. Kenneth Lonergan, autor de apenas dois filmes bons, surpreende com uma obra prima profunda, poderosa e humana.

Após a precoce morte de seu irmão (Kyle Chandler), Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a retornar para sua cidade natal para cuidar do seu sobrinho. Seu retorno suscitará feridas ainda abertas, dores sem remédios e culpas outorgadas.

Toda ruptura emocional desmancha o que era sólido e estável no ar, o homem, despido e vulnerável, vê-se obrigado a encarar, sem ilusões, sua nova posição social no curso da água sempre em movimento. O sofrimento quer ser um sintoma, este quer enunciar a verdade.

Martirizando-se na fronteira entre a vida e a morte, a sensação de esgotamento consome imediatamente tudo que dele se aproxima convertendo seu existir em um lento caminho de agonia sem fluxo e sentido. Descendo às profundezas da fatalidade da existência alcança-se o nada e sente-se a morte ainda em vida, a vida torna-se apenas um movimento para o morrer.

Casey Affleck tem a atuação de sua vida na pele de um sujeito miserável que recusa qualquer tipo de socorro. Seu luto e sua dor constituem sua essência, cada respiração é mais um passo dado na direção contrária ao viver. Uma das maiores atuações nos últimos anos, devastadora e genial.

Darwin definiu a homologia como o reconhecimento de um domínio fundamental das espécies atribuído à descendência com modificação, o sofrimento, assim como as estruturas dos organismos, presume afinidade de origem, mas aqui a origem não se remete ao tempo e sim a causa e efeito.

Emil Cioran costumava afirmar que só se compreende, de fato, a morte quem sente a vida como uma agonia prolongada. Aqueles que gozam de jucundidades não possuem a experiência da agonia nem a sensação do morrer, pois só os verdadeiros enfermos, existencialmente falando, são capazes de uma seriedade autêntica. O sofrimento é um estado de solidão.

A dor de existir é a morte mordendo a vida, é um tipo de viver morrendo e a morte toca bem mais brutalmente o moribundo que o morto. Para algumas pessoas sobreviver é o pior castigo.

por Elmar Ernani