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Meu Rei

 

 

A atriz, diretora-escritora Maïwenn segue aperfeiçoando seu cinema com a experiência da prática, seu quarto longa é o mais maduro e completo tanto no conteúdo quanto nos detalhes subentendidos. Sua preferência por dramas com níveis de ruído superior a 95 decibéis estão cada vez mais notórios, seus personagens possuem suscetibilidade ao estrondo, desordenados e entregues ao alvoroço. Sua maneira de enxergar a caoticidade dos relacionamentos é através do barulho, de fato seus filmes precisam da exposição sonora para que o impacto surta efeito.

 

Na trama, Tony (Emmanuelle Bercot) amarga as dores e os traumas de um longo relacionamento infeliz com Georgio (Vincent Cassel), homem manipulador e possessivo com quem tem um filho. Longe da estabilidade, relacionamentos são um eterno ir e vir e seus constantes altos e baixos é uma regra que não possui exceção. Na relação do filme a adrenalina incessante norteia um envolvimento turbulento onde os altos e baixos oscilam freneticamente como uma montanha-russa.

 

Maïwenn foca seus esforços na construção visceral de um ambiente em que ambos se atormentam. Nessa estrutura destrutiva, amor e paixão misturam-se à mágoa e dor costurando um solo desgastado e complexo que se repete como um ciclo vicioso, ciclo que se renova devido à dependência, um tipo de vício emocional patológico que acomete todos nós, seres humanos. Por sermos seres gregários, existe a necessidade de se criar vínculos e relações amorosas, contudo o amor levado ao extremo pode se tornar um padrão disfuncional repetitivo de infelicidade e dependência.

Maïwenn critica a sociedade que reforça, diariamente, a crença ilusória de que deve-se procurar a felicidade arrebatadora no amor mágico e ideal. As principais distorções cognitivas são causadas por desenvolvimentos problemáticos na personalidade, possivelmente na infância, local onde se estabelecem as primeiras relações e, portanto, os primeiros traumas. Pessoas assim precisam de compensações, elas ainda não perceberam que não existe nada, que você precise do outro, que você não tenha em si mesmo.

por Elmar Ernani