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Moonlight

Na sociedade do consumo, individualista e retrógrada, excluir e submeter o diferente é crucial para a manutenção de um poder psicológico-social. Historicamente, a construção do pensamento da coletividade sempre foi influenciado pelas mentes de um seleto grupo de pessoas economicamente favorecidas, os tempos mudaram, ainda assim o ensaio do discurso do dominante continua buscando o mesmo fim: o monopólio do poder.

Ser minoria é se preparar para a peregrinação dos desfavorecidos, cujo caminho deve ser clareado na base da força. Se por direito não te deram uma passagem justa e não há a menor expectativa de direito, crie ou adapte uma. Moonlight é sobre o percurso da aceitação, é a provação da vontade do querer, pois a essência do poder da vontade pertence em suplantar dominadoramente a si mesmo. Na trama, Chiron, um menino pobre e negro, nascido no berço da violência, sob a margem do preconceito e criado por uma mãe viciada, terá que lutar para encontrar sua posição no mundo.

Ao redor da miserabilidade, Barry Jenkins faz a obra de sua vida, daquelas estirpes de cinema que transcendem o tempo. A composição simples e original esconde, não por muito tempo, a força humana impressionante retratada no testemunho de um olhar sensível em um bioma degradável. Uma poesia sublime e íntima de um indivíduo errante em busca do consentimento, interno e externo, amparado na sinuosidade do silêncio que conforta ao mesmo tempo que molesta.

A antiga teoria política idealizava o poder como algo que uns tem e outros não, representada pela Igreja ou Estado. Políticos como Maquiavel ou contratualistas como Hobbes, Locke, Rousseau e até mesmo Marx, flexionaram seus pensamentos com o objetivo de discutir a legitimidade do poder de poucos sobre muitos, ou subverter, no caso de Marx. Após Foucault, o poder não é mais entendido como um objeto natural, mas uma prática social expressa num conjunto de relações espalhadas por toda a sociedade, uma rede da qual ninguém pode escapar. Difundido o poder em micropoderes, a resistência do submetido contra a domesticação de mentes passa a ser local, regionalizada, desde a porta de casa.

Na retórica da pseudo sociedade democrática unge um certo tipo de moral que busca o nascedouro do poder, a voz ecoa para suplantar as demais desfigurando a identidade dos que não fazem parte da estrada principal. Ali, longe dos holofotes, os periféricos procuram sua personalidade e individualidade e, quem sabe, uma chance.

por Elmar Ernani