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Neruda

O escritor chileno Neftalí Ricardo Reyes Basoalto é um dos maiores poetas do século XX. Seu pseudônimo chama mais atenção, Pablo Neruda, sua voz e seus anseios exaltam a arte e descrevem um turbulento tempo de exceção. Poético e lírico, Neruda não se conteve no campo abstrato dos sentimentos engajando-se na defesa do movimento social, sua talentosa palavra convertera numa arma contras as injustiças. Em Neruda poesia e política são indissociáveis, a poesia nerudiana dá politicidade ao poético e poeticidade ao político.

Pablo Larraín, num ano de duas biografias, descreve os dias do político Neruda após sua mudança de discurso. Vemos não mais o poeta amoroso falando de sonhos, mas sim o político-poeta cantando as dores de um povo massacrado que pisa em sangue pelas ruas. Desde o desaparecimento do escritor espanhol e amigo de Neruda, Garcia Lorca, durante a Guerra Civil da Espanha, sua retórica fora afetada decisivamente, a luta tornara-se pessoal.

No final da década de 40, Neruda (Luis Gnecco) é perseguido pelo inspetor (Gael Garcia Bernal) por ter se juntado ao Partido Comunista. Vivendo na clandestinidade, Larraín se propõe a criar os dias do eminente literato a partir de notas e registros oficiais. Nessa aventura imaginada Larraín continua sua missão de retratar a realidade por um ângulo estreito, novo e, por vezes, audaz.

O historiador Walter Scheidel olhou para o passado e após uma ampla investigação concluiu em seu livro "The Great Leveler" que os homens, de qualquer época, tendem a concentrar riqueza em um pequeno grupo explorando a grande massa ao redor do bolo. Desde a Idade da Pedra, as diversas formas de sociedades excluem de suas prioridades a distribuição de riqueza de forma mais igualitária, a tirania é apenas uma das consequências. Somente as circunstâncias extremas, conseguem, por tempo limitado, diminuir essa diferença. Mobilização para guerra maciça - em alguns países durante a Segunda Guerra Mundial, os ricos foram taxados em mais de 80% em impostos - revoluções que põem abaixo as estruturas sociais, colapsos de Estado e, por fim, as mega epidemias - cujo exemplo clássico é a peste negra que reduziu em 40% a população de alguns países europeus e elevou à lua o preço da mão de obra - formam as quatro forças niveladoras.

Neruda supôs que a ideologia comunista pudesse ser chave que mudaria a vida como conhecemos, não era, ainda vivo pode presenciar os feitos de Stalin e cia. A própria natureza humana é o maior obstáculo para transformações utópicas. Neruda seguiria suas convicções apesar de não apoiar mas partidos como fizera, nunca se calou.

"Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar, couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e o do sangue. A poesia sustentou minha luta, e se muitos prêmios alcancei, prêmio fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prêmio maior, cheguei através de uma dura lição de estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta de meu povo".

por Elmar Ernani