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O Apartamento

Asghar Farhadi, um dos maiores gênios da sétima arte, é daqueles diretores que obriga o admirador da perícia a assistir toda sua filmografia. São um pouco mais de meia dúzia de obras que vociferam destreza e ironias aos hipócritas, denunciam uma sociedade arcaica ao mesmo tempo que impressionam com uma retórica oral e visual poucas vezes vista na grande tela. Seu olhar aguçado e questionador produz alguns dos maiores monumentos erguidos no recanto sagrado da cinematografia.

Na nova incursão do perito iraniano, um casal vivencia o terror psicológico de uma ameaça depois um episódio que mudará suas vidas. Após a interdição da moradia por risco de desabamento, Emad e Rana mudam-se para um apartamento provisório emprestado por um amigo em comum. Lá, os problemas se acumulam devido a antiga inquilina, uma prostituta com uma vida conturbada que ainda possui bens a serem retirados do imóvel.

Com um impecável domínio do espaço narrativo e da língua, Farhadi impera o minimalismo para construir engrenagens complexas e sensíveis que, naturalmente, avançam em silêncio e no mesmo compasso para o ponto nuclear da tensão sociológica. Seus roteiros destrincham a natureza dos homens a partir de conflitos com impasses insolúveis.

Usando a demolição de um edifício como uma metáfora da vida real, Farhadi questiona os valores obsoletos e amorais juntamente com os costumes fósseis e caducos que permanecem inabaláveis e inflexíveis com o passar do tempo desafiando a cadeia evolucionária de Darwin. Suas mise-en-scène catalisam de forma densa e implacável as rachaduras que levam ao incêndio visual sem precedentes.

Entre o desolamento com o estorvo do convívio dos homens e o desencanto com um futuro nada promissor, Asghar Farhadi instiga o surgimento do ressentimento para analisar qual o limite entre a omissão e a vingança, a forma de retribuição clássica da humanidade. Vingar-se é impor a quem lhe fez mal um mal igual ou superior, é provar os pares de força da Terceira Lei de Newton da forma mais primitiva. Em sociedades com Estado inoperante ou onde a lei é inútil, a vingança é responsável também pela demarcação territorial.

O filósofo francês do século XVII, René Descartes, falava que ter método é uma confissão de humildade, Farhadi manipula seu método justamente na acentuada simplicidade demarcando seu estilo único de pensar e filmar. Saudável seria acreditar na famosa máxima de Dostoiévski quando disse que a beleza salvaria o mundo, porém é preferível crer que a beleza do cinema de Farhadi salvará mentes da mediocridade.

por Elmar Ernani