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O Demônio de Neon

 

 

A grandiloquência de Nicolas Winding Refn foi lapidada pelo seu ego conforme suas obras disseminaram mundo afora. Sua assinatura inconfundível o elevou à categoria cult como um dos mais inovadores e promissores do cenário atual. Averso a preceitos, afastou-se do Dogma 95 - manifesto que causou furor na sétima arte e que teve seus conterrâneos como signatários - com a construção de cenas estilosas e muito contraste de cores, todas pensadas ponto a ponto não permitindo espaço para a improvisação. Seus filmes intercalam belíssimos quadros silenciosos com a externalização de um propósito raro para a violência, porém não gratuito, Refn é um mestre na composição de um mundo volúvel que eleva, progressivamente, o nível de tensão e energia.

Visualmente impressionante, com cores saturadas e magnéticas - marca cada vez mais comum desde a obra prima Drive (2011) - aliada à ultra-violência, presença regular em todas suas obras, O Demônio de Neon é o ápice dos símbolos neón noir que o diretor tanto admira, músicas sintetizadas inebriam o espectador enquanto suas cores neon reluzentes o transporta para a geração oitentista. Sua lente acompanha uma jovem, Jesse (Elle Fanning) - muito mais talentosa que sua irmã mais velha - que acaba de chegar em Los Angeles. Dona de uma beleza natural que impressiona, a jovem tentará a sorte em busca de uma carreira de modelo badalada, no entanto, ao longo desse processo, seus sonhos ganharão contornos sombrios ao se deparar com concorrentes letais.

Refn constrói uma experiência sensitiva e provocativa criticando, ferozmente, o mundo da moda. A certa altura do filme afirma que as adolescentes que se amontoam por Los Angeles sem laços ou origens em busca da tão sonhada fama nas passarelas são apenas indivíduos sem talento para qualquer coisa, restando apenas a exploração de sua beleza física, um certo tipo de falsa beleza. Na exploração da beleza vazia, Refn busca, de maneira deliberada, esvaziar sua história de substância mantendo-se fiel à sua particular visão sobre o universo da moda, inócuo e insuportável.

Com tons surrealistas de Cidade dos Sonhos (2001) de David Lynch com thriller de horror, o diretor dinamarquês conjura um frenesi desmedido para cobrar o preço que a obsessão pela beleza custa. Seu ato derradeiro gore soa exagerado como um ato automatizado para gerar polêmica, para que a provocação e a imprevisibilidade seja sua marca registrada, se livrando dos indesejáveis rótulos. Mesmo em dissonância com o restante da obra, seu epílogo em nada atrapalha a experimentação de um filme realmente autoral.

Para Refn toda arte é uma forma de violência.

por Elmar Ernani