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O Filho de Saul

"Os homens são porcos que se alimentam de ouro".

O inferno, palavra que possui origem do latim infernum, que significa "as profundezas" ou "mundo inferior", é um termo usado por diversas religiões para designar um local de grande sofrimento e condenação. Para aqueles que não compartilham das crenças religiosas, o inferno é a definição do primeiro e devastador filme do húngaro László Nemes.

Raríssimos os casos que um diretor no seu primeiro trabalho consegue marcar época, contudo escassas foram as vezes que nossos olhos viram e sentiram ao experimentarem um obra dessa magnitude. O jovem diretor húngaro que confessara seu desejo por um estrondo ao ser questionado sobre a recepção do seu trabalho, jamais previria que o estrondo esperado seria apenas a ponta do iceberg, ele havia realizado um dos expoentes máximos do cinema moderno, uma obra prima.

Situado em 1944, no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, o núcleo da máquina de extermínio nazista, a câmera frenética e impiedosa de Nemes desliza sobre os ombros do húngaro Saul Assländer (Géza Röhrig) transitando no dia-a-dia de um martírio sem fim. Saul que é membro do Sonderkommando, grupo de judeus obrigados a trabalhar para os nazistas em troca de uma sobrevida temporária, vive no lago de fogo da irracionalidade do homem onde gemidos, sussurros, gritos e corpos percorrem seu caminho enquanto ele luta para enterrar, de forma digna, uma criança.

Apático, como um zumbi, esperando a sua hora, Saul desconforta o público com seus olhos e suas atitudes que tudo já viram; não há desgraça maior do que assistir de camarote seu próprio povo queimar, juntar as partes de seus corpos espalhados pelo chão, carregar pilhas de cadáveres aos fornos crematórios ou conduzir recém chegados às câmeras de gás. Desumanizado, ele segue seu ritual no mundo dos mortos até que a morte de uma criança perante seus olhos o desperta, como um sopro de humanidade, para enterrá-lo de acordo com suas tradições judaicas. Seu apego a uma missão kamikaze é a busca pela sanidade mental em meio à solução final imposta por Hitler, no final do ano de 1944, quando os alemães construíram uma fábrica com operações e ritmos industriais para dizimar o maior número possível de pessoas sem deixar rastros.

Usando as percepções sensoriais do único protagonista, Nemes revoluciona a forma de filmar injetando novos olhares para um gênero considerado esgotado. Distante das grandes e positivas histórias sobre acontecimentos verídicos, O Filho de Saul te faz sentir na pele a dor daqueles que viveram na morada dos mortos, um filme claustrofóbico e físico que dificulta tua visão do que acontece ao redor para te fazer sentir, de verdade, como nenhum outro filme ousou impulsionando o espectador a testar os seus limites e perceber quão grossa é sua pele, pois como diria o próprio diretor: a emoção deste filme é a dor.