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O Quarto de Jack

 

 

Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) vivem isolados em um quarto. A criança já tem 5 anos e a única coisa que conhece nessa vida são os poucos metros quadrados de sua prisão com uma solitária janela que o permite fantasiar com uma outra realidade. Aos poucos, ele começa a questionar sua mãe o motivo de viverem aprisionados naquele local, e sua inquietação permitirá com que Joy coloque em prática um plano almejado por anos.

 

Lenny Abrahamson, diretor nascido em Dublin e pouco conhecido do grande público, já havia filmado projetos atípicos, porém interessantes. Estabeleceu uma conexão entre dois sujeitos inexpressivos para explorar a solidão em Garage (2007), mergulhou na vida de um rapaz afortunado para demonstrar que a tragédia, dependendo da condição social, é relativa, em What Richard Did (2012), entretanto foi em 2014 que ele se superou: ao mesmo tempo que abandonou a Irlanda para inserir-se no mercado americano optou por um projeto esquisito e bizarro distanciando-se do cinema quadradinho de Hollywood. Em Frank,  Abrahamson demonstrou ousadia e emocionou com doses de esquizofrenia e atordoamento - um filme que merece ser visto. O Quarto de Jack leva adiante seu destemor em percorrer caminhos inusitados, amplia o reconhecimento de seu nome com as merecidas indicações ao Oscar e gera, automaticamente, uma expectativa para seu próximo filme.

 

Abrahamson exercita o maravilhamento do duvidoso na primeira metade do filme. Busca refletir luz a partir de corpos negros que não emitem luz alguma, idealizando um mundo lúdico e onírico de forma espetaculosa entre quatro paredes sob um ambiente ultrajante e agressivo. A maneira com que o diretor escolhe o enquadramento de cada cena dentro do cativeiro impressiona pelo perfeccionismo, uma aula no curto espaço. A segunda metade é focada no calvário; não há mais possibilidade de uma realidade paralela já que o mundo real toma de assalto a existência da mãe e filho impondo-os o fardo de anos aprisionados.

 

Um cinema sensível e humanista que só se torna exequível devido as atuações poderosas da dupla, o menino Jacob Tremblay é uma força dominante que deslumbra. Difícil escolher a melhor linguagem corporal dentre os atores prodígios desse ano: Jacob Tremblay, Abraham Attah (Beasts of no Nation) e Jacir Eid Al-Hwietat (Theeb).

 

A relação de uma mãe com seu filho é de uma particularidade que nenhum outro vínculo afetivo é capaz de compreender. Por via de regra, diferentemente do pai, a relação da mãe com sua cria é imediata, não depende de formas estabelecidas pela cultura. Trazer alguém no mundo é trazer para a finitude, para a angústia, lançá-lo na existência. Ser mãe é um problema existencialista, é ser diretamente responsável e causador da finitude de outrem.

 

Boécio escreveu A Consolação da Filosofia, um dos clássicos da filosofia ocidental, quando estava preso à espera da morte do qual havia sito sentenciado por um crime de traição que não cometeu. Entre tábuas e estiletes, ele descreveu como a filosofia pode ajudar o ser humano a enfrentar situações extremamente dolorosas, e que a felicidade pode entrar em toda parte se suportarmos tudo; é o triunfo do espírito sobre a capacidade física, é a mente gerando força. Nas noites mais escuras e frias a filosofia apoia e aquece, ilumina e consola, assim também é o amor de mãe, ou pelo menos deveria ser..