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Paterson

Jim Jarmusch sempre atento aos detalhes da vida que passam desapercebidos para maioria das pessoas, é um cineasta e escritor especial. Nas sombras ele constrói sua morada e se recicla, sempre contemplando planos frágeis, mudanças a longo prazo e reflexões existenciais.

 

 Dois anos após o fabuloso Amantes Eternos (2014), o instrutor da observação retorna com um poema tão belo quanto seu precursor. Na cidade de Paterson, Nova Jersey, existe um morador de mesmo nome que ganha a vida como motorista de ônibus. Dotado de um raro talento natural para se expressar com as palavras, Paterson (Adam Driver) escreve do que vê e ouve do mundo ao seu redor, sua inspiração surge da trivialidade da vida.

Não está claro se Jarmusch pensou seu novo filme como um soneto lirico com o intuito de divagar suas ponderações sobre a vida moderna ou se sua intenção, na verdade, era mais filosófica e solidária com seu público ao fazê-los crer na contemplação da vida em seu minimalismo diário ou, quem sabe, ambos objetivos caminharam juntos. O que nos é evidente é sua capacidade incomum de pensar uma obra tão bela, completa, sólida, delicada e, principalmente, inédita e autoral em tempos de roteiros tão similares.

A alegoria do viver cada dia nunca foi tão prazerosa, a cada novo amanhecer Paterson recita poemas sobre sua nova perspectiva, os dias se afastam de sua pobre rotina tateando o extraordinário, até então inconsiderado. Jarmusch cria uma estrutura de estreita observação revelando pequenos e simples momentos com empatia.

Paterson não está à procura de satisfações que a vida lhe deva, mas trazer satisfações para sua vida, sabe que um homem não é medido por aquilo que acumula e sim em sua fundamentação do que é, e o que pode ser relevante ao seu meio. Ele percebe que a poesia não é estranha à vida, pois a própria vida é em si uma forma de poesia. É na abstração literária que o ser humano encontra fogo e asas, Freud já dizia: aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim.

 

Sem vilões e heróis, disfunções familiares ou problemas de saúde, Paterson, tal como todos nós, segue seus dias, suas estrofes também.

por Elmar Ernani