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Que Horas Ela Volta?

 

 

Uma dos expoentes da falência jornalística, ética, moral e artística da televisão nacional, Regina Casé, perturba a comunidade do cinema com uma revelação até então impensada: a apresentadora do Esquenta é realmente uma atriz. Por trás de um dos piores programas da história desse País - que insiste em promover a favelização, religiosamente aos finais de semana, como uma expressão cultural brasileira - a mãe da laje nos apresenta a um talento oculto e inacessível escondido, por mais de quatro décadas, de trabalhos lamentáveis, falsos sorrisos e piadas grotescas.

 

Justiça seja feita ao "glorioso" Esquenta, ele não é a única poça de lama estrategicamente inserida em um mundo quase perfeito. A TV nacional definha há anos com problemas das miríades de apaniguados que abarrotam as programações, em todos os seus horários disponíveis, prestando um serviço de péssima qualidade em um espetáculo degradante de completo descaso e falta de vergonha na cara. Ele é apenas mais um encardido no esgoto brasileiro.

 

Regina Casé tem aqui uma performance irretocável, memorável. Sua interpretação é tão impressionante que, ao longo de toda a película, é possível esquecer que ela é a rainha da periferia, a porta-bandeira das minorias do Rio de Janeiro, mesmo que todos esses rótulos não passem de um teatro mal feito, em busca de um lugar ao sol no Projac.

 

Anna Muylaert assina e escreve essa pérola do cinema brasileiro, amplamente aceito e premiado pela crítica estrangeira e possível indicado do Brasil ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com uma história humana, sensível e simples, Muylaert narra a trajetória de uma pernambucana, Val (Regina Casé), que se muda para São Paulo com o objetivo de melhorar as condições de vida da sua filha, Jéssica (Camila Márdila). Sendo babá de um adolescente da classe média e morando na casa dos patrões, Val segue sua rotina. A ida de Jéssica para São Paulo romperá com a música escolhida e a dança imposta dos patrões à Val.

 

Que Horas Ela Volta, é um tipo de filme que se desenvolve nas entrelinhas, na câmera modesta, por vezes sem ser notada, nos olhares que nada revelam, na humilhação discreta e constante, no jogo invisível de forças desproporcionais.

 

Eric Rohmer, o mestre do cinema humanista, das trivialidades do cotidiano, disse uma vez que um bom filme é também um documentário, muito provavelmente ele aplaudiria de pé a esse retrato antológico das interações humanas.