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Sopranos

Amplamente considerada pela crítica especializada como a maior série de todos os tempos, Sopranos coleciona cultuadores com o passar dos anos. Criada por David Chase em meados de 1999, a série revolucionou a televisão americana concebendo uma nova abordagem para as realizações criadas para a TV e estabelecendo um status de cinematografia para as produções semanais. Seu nome tornou-se um mito e seu legado é sentido até hoje, dezessete anos depois.

Foram 86 episódios, espalhados por seis temporadas, que conduziram uma simples história de uma família suburbana mafiosa ao reconhecimento mundial. A quantidade de premiações são um vislumbre do poderio de um produto fabuloso, resultado de uma aproximação de talentos nas mais diversas áreas de criação e execução. Roteiros inteligentes, atuações inesquecíveis, diretores perfeccionistas, aparato técnico irrepreensível e locações impecáveis tudo conduzido por uma trilha sonora memorável fazem de Sopranos mais que um marco para a demanda e valorização das séries adultas, instituem o surgimento da primeira obra-prima da TV, a implantação de um projeto que flertou com a idéia humana da perfeição absoluta.

Muito comparada à trilogia sagrada do Poderoso Chefão por suas semelhanças com a trama mafiosa quanto pelo patrimônio transmitido aos seus herdeiros, a Família Soprano é um olhar mudano e despido de refinamento do universo de seus personagens, longe do requinte e sofisticação da Família Corleone, afastando-se do retrato que a trilogia plantou no imaginário popular, tão glamouroso que até os próprios gânsters quiseram imitá-lo. Tony Soprano (interpretado pelo fantástico James Gandolfini) é um chefe do crime organizado e pai de família que busca progredir nos escusos negócios familiares enquanto cria seus dois herdeiros e tenta salvar seu casamento. Essa desmistificação da máfia, familiarizando-a com o cotidiano é o grande triunfo da série que conquistou popularidade - Sopranos reinou como a série mais assistida da HBO, só perdendo o posto em 2014 para o fenômeno pop Game of Thrones - e admiração dos críticos, combinação nem sempre viável.

Entre a comédia e a tragédia, a tensão e a violência, David Chase assenta seu argumento na rotina doméstica de uma família incomum, organizada sob os escombros da Lei, na ruína da sociedade moderna. Com um ritmo sem precedentes e atores fenomenais, Sopranos envolve e impressiona, sua figura principal, Tony Soprano é, facilmente, um dos maiores personagens já escritos e interpretados, não só da TV americana, como de qualquer produção já realizada até os dias de hoje. Sua força intimidadora em tela e seu ímpeto avassalador deve-se ao talento nato do grande James Gandolfini, que arquiteta o papel de sua vida transformando um assassino corrupto em um anti-herói de moral flexível, porém querido.

 

Gandolfini sabe da importância do antagonismo, os mitos também devem ser seres humanos ao invés de criaturas estereotipadas ou deuses de lata, sem falhas ou imprevisibilidade. Seu personagem tem uma combinação única de impulsos contraditórios mais realistas e humanos do que aqueles que exibem apenas um traço de caráter. Edie Falco, Lorraine Bracco, Dominic Chianese, Tony Sirico, Michael Imperioli, Van Zandt, Drea de Matteo e Steve Buscemi completam o estelar elenco. Com uma conjunção de astros desse nível o alinhamento é inigualável, inicia-se o símbolo do movimento ascendente da televisão; o divisor de águas de dois períodos que não se comunicam no mesmo idioma.

As produções audiovisuais sempre dispuseram de um fascínio com essa organização criminosa nascida no sul da Itália, especificamente na Sicília, no século XVII, em resposta à abolição do sistema feudal. Vivendo à sombra da coletividade, esses bandos em busca do controle social evoluíram, proliferaram-se economicamente e expandiram sua influência lavando e investindo dinheiro na economia legal. Tony Soprano se posiciona no recanto privilegiado dos maiores dessa mitologia cinema-realidade, sua desenvoltura é a idealização de um mundo dominado pelo mais puro código do gesto humano, que não se deixa reter pelo embaraço da linguagem, gângsters como Soprano e Corleone são como deuses, não falam, acenam com a cabeça, e tudo acontece.

por Elmar Ernani