Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo

T2: Trainspotting

Danny Boyle retorna, duas décadas depois, a realidade essencialmente sem significado. Renton (Ewan McGregor) volta para o único lugar que consegue chamar de casa vinte anos após a traição. No reencontro com seus três ex-parceiros, a vida cobrará o ajuste das dívidas enquanto a realidade crua apontará seus devidos lugares.

Trainspotting é construído a partir da descontinuidade do indivíduo para com a sociedade. São duas forças antagônicas. Suas criaturas possuem individualidades tão exacerbadas e transtornadas que contrariam as normas vigentes. Suas vidas ensejam a existência de um sistema sociocultural próprio distinguível das biografias dos demais membros ordinários.

Claude Lévi-Strauss, renomado filósofo e antropólogo, afirmava que a humanização só é possível através da cultura e da vida social, o homem em isolamento sociocultural deforma ciclicamente seu processo de conhecimento. Trainspotting é sobre esse corrompimento, sobre os espíritos atordoados que jamais poderão ser humanizados.

Sem a surpresa e a revolução do primeiro filme - Trainspotting (1996) -, Boyle aposta na nostalgia e na densidade existencial para manter o mesmo nível de esgotamento sociológico. Não obstante o rompimento do pacto social seja diante de um presente vazio, o destino punitivo paira sob as costas desses inimigos internos da sociedade.

Há requisitos operacionais que acentuam o grau de incompatibilidade entre as espécies dentro de um mesmo sistema social, é nesse extremo que Danny Boyle age ao retratar incontestavelmente um conjunto de comportamentos reunidos ao acaso, uma alcateia de zumbis sem espaço ou porque de existir.

Vivendo de um passado irracional e sem saber o que fazer com um presente que não encontra perspectivas, eles são turistas de si mesmo. Distante da ordenação e do juízo moral, Boyle abandona seus personagens a própria sorte, sem rumos ou planos. Ali, flutuando à deriva em alto mar, eles escolhem morrer afogados.

por Elmar Ernani