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Tarde Para La Ira

Gula, luxúria, avareza, soberba, preguiça, inveja e ira, os sete pecados capitais são tão antigos quanto o catolicismo, catalogados como os piores vícios de conduta do homem sua fama o precede. A ira é um estado da alma. No ser humano, as respostas a uma ameaça são reguladas pelo córtex, no lobo frontal, o que o diferencia dos restantes dos animais já que essa camada, rica em neurônios, fornece a capacidade de ponderação, ou seja, de modulação da ira.

Habilitado para garantir a preservação da espécie, a ira funciona como um mecanismo de auto-defesa que faz com quem o cérebro dispare ao detectar um potencial perigo, mas ela também pode ser encarada como fonte motivacional. Na história, Curro foi a única pessoa detida em um roubo de uma joalheria, mas passados oito anos de sua pena ele pretende voltar para a família e recomeçar. Mal sabe ele que as estradas trazem consigo os velhos fantasmas do passado e um indivíduo que recorda do passado e anseia por redenção no presente.

José (Antônio de la Torre) é um sujeito que teve seu córtex levado a falência, totalmente incapaz de ajuizar qualquer valoração sua ira abandonou a temporariedade habitual para se tornar o alimento diário. O jovem ator Raúl Arévalo desponta em sua primeira película com um drama denso e indômito expondo solos e corações envenenados. Em busca das raízes de uma Espanha profunda, aos poucos, transporta seus personagens da capital espanhola para o ambiente rural e precário. O acerto de contas pede uma atmosfera suja.

Tito Lívio, um dos grandes escritores da antiguidade e precursor intelectual de nomes como Maquiavel e Montesquieu, afirmara que a ira nada pode sem a força, para José a ira é sua própria força, sustentando e guiando-o, nada mais existe.

Longe das armações de concreto, os culpados levam sua vida secreta escondendo-se das decisões remotas, mas o pecado em que se sustenta a nova normalidade erguida sobre o sangue está prestes a ser confrontado, como um velho lembrete aberto num papel envelhecido. Como um conto folclórico, o efeito borboleta, silencioso, mas imparável, desencadeará a inevitabilidade da causa e efeito.

por Elmar Ernani