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Terra Selvagem

"Você não pega lobos procurando onde possam estar, procure onde eles já estiveram".

Apesar de atuar por mais de vinte anos, Taylor Sheridan conquistou a admiração dos críticos recentemente após desenvolver uma nova faceta de seu talento, dessa vez, como roteirista. Fascinado pelo estudo da história e antropologia, o recém contador de histórias procurou desenvolver em suas narrativas a ideia de que o homem não é apenas um ser humano, mas um conjunto de significações estruturadas a partir de uma dinâmica coletiva.

O ser humano não é totalmente solitário nem absolutamente sociável, nele coexistem as duas dimensões e as emprega conforme lhe é exigido pelo meio ou por seu interesse. É na dor que se manifesta claramente a relação entre indivíduo e sociedade.

O homem não age livremente e agindo no tempo está sempre condicionado pela mudança. Sheridan procura expor seus indivíduos - o único ser na natureza capaz de estabelecer um fim para si e ao mesmo tempo fazer do desejo de outrem o seu próprio fim - à beira da extinção revelando suas ações ao renunciar sua condição como membro de uma coisa pública para reassumir sua liberdade interna. O pragmatismo antropológico de Kant pregava que a imperfeição individual do ser elevava-se até a melhora da espécie dada a limitação no âmbito individual. Nas histórias de Sheridan, o indivíduo percorre o caminho inverso quando sua própria sobrevivência encontra-se ameaçada.

Seus enredos compõem uma trilogia da América, todavia distante do marketing da disseminação do sonho americano Sheridan alveja as feridas profundas do império. Sicário (2015), dirigido por Denis Villeneuve, aponta para a decadência das fronteiras americanas assoladas pelo impacto do tráfico de drogas. A Qualquer Custo (2016), dirigido por David Mackenzie, explora o esfacelamento das pequenas comunidades do Velho Oeste americano em prol do enriquecimento das grandes corporações.

Terra Selvagem, dessa vez dirigido pelo próprio Taylor Sheridan, fecha a trilogia refletindo sobre a crise de raças, no caso, a opressão imposta aos indígenas remanescentes, transtorno insolúvel em um país marcado pela discriminação racial. No longa, Cory (Jeremy Renner), um exímio caçador de lobos e traumatizado pelo assassinato não solucionado da filha adolescente, encontra um corpo congelado de uma menina em meio as montanhas de neve. Encarando o mistério pelo lado pessoal, Cory decide auxiliar uma agente novata do FBI na busca pela verdade.

Com direção honesta, o longa tem nos seus diálogos geniais o seu diferencial. A fotografia impecável aliada aos longos planos intermináveis sob a neve transmitem com fidelidade a complexidade de viver num ambiente viril e ríspido. Ainda assim são os indivíduos sabatinados pelo tempo que trazem para si os olhares da contemplação.

 

A dor - sentimento de difícil acesso para os que faltam experiência, pois ao primeiro sinal de inquietação desejam enfrentar o mundo todo - encontra nos indivíduos vividos receptores à altura. Esses, sabem que a melhor forma de encarar as grandes adversidades é enfrentando seus sentimentos, porque, com o tempo, perceberam que o mundo venceria. A sorte não habita ambientes extremos, ela mora na cidade. No meio do nada é sobreviver ou se render. O lobo não mata o veado azarado, mata o mais fraco.

por Elmar Ernani