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Truman

 

 

Truman é uma despedida madura e equilibrada da vida, um adeus emocional para o último suspiro de relevância do ser humano e seu pesado percurso em busca do desapego.

 

No reencontro, e último adeus, dois amigos de infância celebram os velhos tempos e acertam os ponteiros à medida que o tempo dos dois cessa. Nos quatro dias em que Tomás (Javier Cámara) e Julián (o onipresente Ricardo Darín) convivem, sabemos um pouco mais da vida de ambos: seus arrependimentos, escolhas, amores e frustrações, tudo isso paralelamente à busca de Julián para encontrar um novo lar para seu cachorro, e fiel amigo, Truman.

 

Cesc Gay dirige com brilhantismo de um veterano essa saudação da vida. Uma história simples, de roteiro enxuto, porém dotada de uma carga psicológica complexa com um diretor em franca ascensão e a maior dupla de atores do cinema íbero-americano, o argentino Ricardo Darín - um mestre na arte de representar, e o excepcional ator espanhol Javier Cámara, assíduo colaborador do cinema magnético de Pedro Almodóvar.

 

A bíblia, encarada como ela deveria ser, ou seja, como apenas um livro, possui várias passagens interessantes em seu corpo rebuscado e, por vezes, contraditório. Em uma delas, no livro de Eclesiastes, existe a seguinte passagem: para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus. Nos momentos a que Truman se dedica, isso não é verdade. Nos derradeiros momentos restam-se sempre muitas palavras por dizer, pois na queda de braço com o tempo nossa derrota é urgente e, na maioria das vezes, ele não nos permite o luxo de sentirmos realizados. O silêncio de Tomás no aeroporto é a resignação diante deste fato inevitável.

 

Apesar da melancolia, há uma certa beleza na morte, a única certeza que se traduz com exata precisão na existência de qualquer ser. Porque morrer, como diria Sócrates, é uma ou outra destas duas coisas: ou o indivíduo não tem absolutamente nenhuma existência ou consciência do que quer que seja, ou a morte é uma mudança de existir, uma migração para a alma. Em outras palavras, para quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada, traduzida na ausência completa de angústias, o fim das aflições. E para quem acredita na continuação da vida (por mais fantasiosa que seja a idéia) a morte é a passagem desta existência para outra melhor, o que se leva a concluir que a dor da morte encontra-se na vida e não na morte em si.

 

A morte é um problemas dos vivos.