Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo
Próximo

Trumbo

 

 

Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas; o que importa é transformá-lo. Com essas palavras, Karl Marx incitava as mentes para uma revolução, estimulava o proletariado para se envolver na luta política entre classes sociais e mudaria o mundo para sempre. Sua mensagem avançou pelos quatro cantos do mundo, barreira alguma foi capaz de dissipar seu falatório, influenciando diversas áreas do conhecimento, como Filosofia, Sociologia, História, Ciência Política, Antropologia, Psicologia, Economia, dentre outras. Em pesquisa realizada pela BBC de Londres, Marx foi considerado o mais influente filósofo de todos os tempos. Apesar de parecer absurda, não é exagero pensar que por mais ignorante historicamente que seja o sujeito, é mais fácil citar alguma ideia marxista à compreender o pensamento de Kant, Freud, Nietzsche, Einstein ou Newton.

 

Seus ideais revolucionários abalaram as estruturas dos séculos XIX e XX e seu modelo comunista impulsionou revoluções e segmentou a realidade em duas frentes. Em meio a essas circunstâncias, criou-se nos Estados Unidos, durante o pós-guerra, uma cultura esquizofrênica de caça às bruxas, uma espécie de cruzada contra o inimigo vermelho. A censura e retaliação usurpariam os canais culturais do País - são os veículos de comunicação social que interagem e influenciam o pensamento majoritário - e Dalton Trumbo, celebrado escritor que arrancava aplausos pela habilidade em redigir na mesma proporção gerava barulho por seus valores comunistas, seria o alvo principal da expiação no cinema americano.

 

Em meados da década de 40, Dalton Trumbo, interpretado por Bryan Cranston, o eterno Heisenberg de Breaking Bad, um dos mais renomados roteiristas de Hollywood, ao recusar-se cooperar com o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso (comitê criado durante a Segunda Guerra para investigar agentes nazistas possivelmente infiltrados nos Estados Unidos, mas que após a guerra tornou-se uma seita paranoica de perseguição ideológica contra a expansão comunista) é detido e proibido de trabalhar. Mesmo após a saída da prisão, Trumbo lutou por anos contra a lista negra do governo sofrendo represálias, boicotes e perseguições.

 

Jay Roach, cineasta, até hoje, de técnica e estilo duvidosos, acostumado com comédias chanchadas, dirige de forma segura e correta mais uma dessas (incontáveis) histórias repletas de bizarrices em que uma atitude grotesca baseada em falsas prerrogativas obtém apoio popular inexplicável, e consequentemente legitimidade, pois como já articulava Maquiavel, qualquer autoridade é legítima se for reconhecida como tal. Jay Roach possui a sensibilidade de encarar o assunto com a seriedade que lhe é incumbido, atuando de forma quase invisível, aproveitando o bom roteiro e o grande elenco à sua disposição. Cranston brilha, longe de Walter White/Heisenberg, operando de forma sólida e comedida, atuação impecável que coroa a primeira grande encenação no cinema desde o fim da inesquecível série do professor de Química que emulou Ozymandias.

 

Karl Marx acreditava que o homem não era apenas racionalidade, mas a opífice de seu próprio desenvolvimento. Se uma rocha pudesse pensar, isto é, se tivesse compreensão de si e do mundo que a cerca, ainda assim, continuaria sendo uma rocha, pois não poderia mudar sua forma ou o mundo em que vive; o homem, ao contrário, é capaz. Trumbo evoca a onda alienada macarthista para denunciar um dos períodos mais sombrios do cinema e da história americana. Não importa o local, civilização ou o período histórico, seres humanos sempre tenderão à bestialidade. A ausência de reflexão protege as condutas da crítica.