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Um Limite Entre Nós

O estrelado dramaturgo americano August Wilson recebeu a homenagem que faltava ao seu clássico Fences, vencedor do Pulitzer de Teatro e do Tony. O regente dessa orquestra racial fatídica é Denzel Washington que retorna à cadeira de direção após 10 anos de forma incisiva. Alheio as tradições americanas que buscam facilitar para a plateia no processo de transição da obra literária para a cinematográfica, Denzel Washington contempla o teatro com a reverência daqueles que se ajoelham inclinando-se a superioridade de outrem.

Como o arauto do fracasso a história segue a vida de Troy Maxson (Denzel Washington), talentoso jogador de beisebol que viu seu sonho ruir por causa da cor de sua pele e se tornar catador de lixo. Velho, frustrado e desiludido, ele sobrevive seus dias ao lado da fiel esposa Rose (Viola Davis) e do filho mais novo.

Construído como um palco intimista, seu foco está canalizado em inspirados e pesados diálogos e atuações imortais especialmente do eixo central da família devastada pela falta de esperança: Washington e Davis. Longe da métrica de valor preocupada em agradar os outros, uma infinidade de implacáveis frases são proferidas sem rodeios explorando a real natureza dos sentimentos íntimos daqueles que vivem na danação do infausto.

Sem dinheiro e perspectivas, Troy deixa de desenvolver, à medida que o fatigante tempo se desenrola, com modelos melhores de si acometendo todos os integrantes que, por amor ou imposição da genealogia, foram intimados na ingrata tarefa de viver ao seu lado. No sentimento de que a vida está acabada naquela fórmula pobre de ser e que a rotina é sempre a falta de liberdade de escolha, o amor perece diante da falta de horizontes, já afirmara Luiz Felipe Pondé.

No meio dos anos 50, no auge de uma América desagregada racialmente, o destino do afro-americano, que aspirou o reconhecimento por seu talento e terminou recolhendo lixo nas ruas, é impiedoso. Para Troy, dias não são vividos, mas sim contados com desafogo de quem espera ansiosamente o inevitável, como o sujeito que marca um risco na parede com uma pedra ao fundo de uma cela solitária. Aquele que ousou tocar seus sonhos e malogrou está fadado a lutar constantemente em busca de sua própria ressignificação.

por Elmar Ernani